Tuesday, March 5, 2013

Como o significado das casas astrológicas foi obtido?

Por Paulo Felipe Noronha


Quando o estudante inicia seus estudos astrológicos, muito do simbolismo contido na astrologia se revela naturalmente. No entanto, outra parte desse simbolismo, contido nas várias técnicas, permanece obscuro e de difícil compreensão. Assim, para o estudante sério, surgem dúvidas várias, que acabam forçando uma escolha: usar certa técnica com pura fé na autoridade de outros estudiosos que vieram antes, ou cavar fundo, até encontrar a informação que desvela significados. Várias dessas dúvidas surgem quando se é exposto ao sistema das casas astrológicas, e é sobre como foi obtido o significado das casas que pretendo falar numa série de posts. Para tanto, vou me basear nos escritos de dois astrólogos contemporâneos, Robert Schmidt e Deborah Houlding, do primeiro, em seu artigo "The Facets of Fate: The Rationale Underlying The Helenistic System of Houses", publicado na edição de Dezembro/Janeiro do periódico The Mountain Astrologer, de 1999/2000, e da segunda no livro "The Houses, Temples of the Sky", edição revisada e estendida publicada em 2006 pela editora The Wessex Astrologer. O artigo pode ser encontrado no link http://issuu.com/vertacsy/docs/the-hellenistic-system-of e o livro pode ser comprado em http://www.amazon.com/Houses-Temples-Sky-D-Houlding/dp/190240520X

Do plano geral para o plano específico de uma carta

Quando o construto do que é uma carta é analisado, o primeiro passo é observar suas divisões maiores até chegarmos às menores, e assim, vamos construindo o sentido de como foram obtidos os significados contidos nesta. Então, a primeira coisa que se observa em relação à ao espaço de uma carta é sua divisão em dois hemisférios. No centro da carta está a Terra, e numa circunferência em volta, do ponto de vista geocêntrico, estão os planetas, que variam na sua velocidade de movimentação de acordo com sua distância da Terra, e a própria eclíptica, dividida em 12 partes que chamamos de signos. A primeira divisão a ser feita é entre o hemisfério superior e inferior da carta. Começando do grau ascendente, passando pelo meio do céu, até o grau descendente, temos o hemisfério superior, e do grau descendente, passando pelo fundo do céu, até o grau ascendente, temos o hemisfério inferior. A primeira analogia que se pode fazer é, sendo o hemisfério superior aquele que é iluminado pelo luminar dos tempos (Sol para quem nasce de dia, Lua para quem nasce de noite) esse é o hemisfério da vida pública do nativo, daquilo que em sua vida se revelará para o mundo. Esse hemisfério representa o céu visível no momento do nascimento, ou seja, a parte iluminada pelo Sol ou Lua (caso esta tenha ascendido ou venha a ascender, pois na Lua Nova a Lua nunca ascende de fato durante a noite, ou seja, se "esconde" no Sol) ou mesmo para as estrelas que estejam visíveis naquele momento. Já o hemisfério inferior representa a vida privada, ou seja, aqueles elementos que estão ausentes do céu visível. Astronomicamente falando, essa é a metade da terra que está do "outro lado do mundo", e astrologicamente, está abaixo da terra, e simbolicamente é o "submundo".



O plano da eclíptica é um plano imaginário por onde circula o Sol, e que astrologicamente falando, se projeta ao infinito. Sua divisão em 12 partes é o que chamamos de zodíaco. 

Assim, é possível notar que as casas I, XII, XI, X, IX, VIII e VII falam de coisas públicas e que nos concernem diretamente do ponto de vista social, sendo a XII os atos falhos, mal mensurados ou reprováveis, a XI o círculo social de relacionamentos deliberados, e também as expectativas e o que se faz para alcançá-las, a X representa a praxis, aquilo que alcançamos mediante esforço e que evidencia nossa natureza, a IX as crenças e o nível de sapiência, os valores intrínsecos, a VIII representa o passamento dessa vida, e finalmente, a VII, os companheiros, com quem nos associamos ou aquilo ou àqueles que combatemos, bem como nossos eventuais declínios. Por sua vez, no hemisfério inferior, temos os elementos que nos são menos evidentes ou imediatamente perceptíveis, quiçá meramente contíguos, e que se deflagram não por afinidade ou escolha, mas sim, pelas contingências impostas a cada existência. Desse modo, a VI representa doenças, a V, filhos, o legado, a IV, como fundação da carta natal, os pais (ambos) e familiares em geral, as origens, a III os sujeitos de convivência por mera proximidade, como irmãos, vizinhos e círculo social imposto, a II as posses adquiridas. Finalmente, como o grau ascendente e descendente marcam os hemisférios, é natural considerar que parte das casas I e VII estejam em um hemisfério enquanto outra parte esteja em outro hemisfério, o que abre até mesmo possibilidades interessantes de delineação, baseando-se no tanto de graus que cada uma, por signos inteiros, esteja acima ou abaixo do horizonte.

Mas isso é apenas o começo. Além dessa divisão, outros fatores devem ser levados em consideração, no que se trata do significado de cada casa. A posição da casa na carta é o primeiro deles, certamente, mas também a relação aspectual que essa casa tem com outras casas pode criar um significado que de outro modo, não existiria.

Mas antes de dar prosseguimento para a razão dos tópicos de cada casa astrológica, é preciso desembaraçar uma questão terminológica. As casas astrológicas, que revelam assuntos mundanos, são chamadas casas mundanas, e as casas celestiais, são os signos. A idéia aqui seria que, por exemplo, Libra é a casa de Vênus, assim, Vênus em Libra está no seu trono, e pode manifestar seu poder venusiano de maneira quase que perfeitamente venusiana. Pela mesma lógica, o assunto representado pela casa só pode ser qualificado no nível mundano pelo signo, pois o espaço do signo é o espaço do assunto, daquilo que o qualifica. Esse é o tópico.

Mas, como o mundo é imperfeito, e não manifesta adequadamente o "ideal divino", existe a questão dinâmica, ou seja, o quanto de força um planeta terá para exercer sua influência. Vênus, mesmo em Libra, que é uma Vênus muito próxima do ideal do que deve ser o princípio venusiano, pode estar cadente. Assim, ela não teria força para manifestar esse princípio, Ela (Vênus) não se evidencia, tem qualidade intrínseca, mas não é oportunamente favorecida. Finalmente, a última classificação se determina pela própria natureza da casa tópica. Dependendo do local onde o signo caia, de acordo com a "roda da fortuna", ele pode representar bons elementos ou maus elementos. Uma natividade com ascendente em Gêmeos, por exemplo, terá o signo de Capricórnio como 8º signo, no portão de entrada para o Hades. Assim, mesmo que Saturno, regente de Capricórnio, esteja investido de dignidade essencial, ele será um dos portadores acidentais do assunto "morte" naquela carta, de um jeito ou de outro. Ou seja, a casa VIII representa um assunto indesejável, segundo nossa percepção subjetiva e universalmente concordada, do que tal coisa possa ser.



A Roda da Fortuna. Toda carta astrológica é analógica, em certa medida, a esse mito; o próprio movimento primário, que faz um signo diferente ascender, aproximadamente a cada duas horas, é o melhor exemplo dessa analogia. Não confundir com Lote, ou Parte da Fortuna, que divide princípio similar, mas é outra coisa.

Pois bem, além da posição e relações aspectuais, existem dois outros arranjos cruciais para o entendimento de como foi obtida a significação de cada casa. O primeiro arranjo é mais conhecido dos estudantes em geral, e se refere ao eixo da casa. Por exemplo, as casas 3/9 fazem parte de um eixo. Já o outro arranjo, que não é tão evidente assim, se refere às classificações sucedente, angular, cadente. Essa ordem do arranjo, que começa na sucessão, não é aleatória. A idéia, como apresentada por Deborah Houlding seguindo a tradição, é que um planeta sucedente ascende ao poder, um planeta angular assume uma posição de poder, e um planeta cadente decai do poder. Entretanto, foi Schmidt quem percebeu como essa dinâmica determinou os significados mais básicos das casas.




As casas II, I e XII

II -

A casa II é a que aspira à I. É uma casa problemática no seu entendimento, pois paradoxal. A casa II guarda tanto promessas benéficas quanto maléficas, e discernir qual delas se concretiza de fato, pode se configurar num tremendo desafio para o astrólogo. A primeira coisa a ser notada é que todas as casas recebem parte de seus significados por posição, de acordo com o movimento primário, oriundo da rotação terrestre (sentido horário) que ocorre diuturnamente, e faz com que o Sol nasça ao leste e se ponha à oeste (segundo a percepção geocêntrica). Assim, o Sol como representante do espírito, adentra os portões do submundo na casa VIII, seu eixo oposto, e a casa II é o portão de saída desse submundo. O nome grego desta casa é Anaphora, que numa tradução aproximada significa "Ascendendo do Submundo". Por essa razão, a casa II antecede a vida que toma forma, ou seja, seu significado é aquilo que adquire vida, que se anima no mundo material. Mas, exatamente por representar a ascensão para a luz, e sendo o mundo material o mundo de escuridão e ignorância, a casa II também carrega entre seus temas a morte. A noção que leva a isso e a conseqüente significação foram parcialmente perdidas ao longo da história da astrologia ocidental, mas o significado ainda se mantêm na jyotish. A casa II carrega em si o simbolismo do espírito desencarnado, liberado das constrições materiais e ascendendo para a luz e eternidade, e naturalmente, o evento pelo qual isso toma lugar não é outro senão a morte. Outra razão pela qual a casa II carrega tal significação, se dá pelo fato de que ela não irriga o ascendente com a luz que emana das estrelas nela contida. Em aversão ao signo ascendente, ela não divide com ele qualquer afinidade simbólica. Sendo o ascendente, por excelência, o local onde se dá a concretização da vida, todas as casas celestiais que não lhe aspectam, basicamente se declaram alienadas, ou seja, liberadas de qualquer agenda em sintonia com a agenda do signo ascendente (agenda essa que é a própria "vida" e a qualidade vital do corpo físico). Assim, os signos em sêxtil possuem o mesmo pólo, diurno ou noturno, de acordo com o ascendente, os signos em trígono possuem o mesmo elemento (fogo, ar, água ou terra) os signos em quadratura possuem a mesma modalidade (cardinal, fixa ou mutável) e os signos em oposição dividem o pólo diurno ou noturno bem como o mesmo eixo. Casas celestiais em aversão não apenas não dividem qualquer afinidade simbólica com a casa sob julgamento, como também não representam qualquer fase notável do ciclo sinódico, que inicia no ascendente (novo(a) 0º, crescente 60º, cheio(a) 180º, minguante 240º) e por isso, não indicam animação, ao contrário, indica-se aí, ausência de movimento perceptível, que seria consoante ao ascendente, e à noção de vida que ele carrega (pode sim haver animação favorável à vida nessas casas, mas em relação a outras áreas tópicas para o nativo, e tão somente por derivação, mas não em relação ao tópico do ascendente em si, a animação, se houver, se dá por meio intermediário como translação de luz, ou após um período de paralisia, quando a saída da estrela dessa zona de aversão volta a remeter ao conceito de vitalidade / movimento). Como o movimento está atrelado ao caos, e por conseqüência, à geração e desenvolvimento da vida, as casas que não permitem a transmissão direta de luz ao ascendente são também chamadas inativas. Por outro lado, a casa II carrega consigo a promessa vindoura de vida, por meio da infusão de luz (espírito) no objeto escuro (matéria) e por sua posição antecedente ao ascendente, ao qual ela emite testemunho de suporte. É uma casa germinal, solo fértil, pronto para gerir o desabrochar daquilo que se evidenciará para o mundo. Por isso, é a casa dos alimentos (aquilo que "morre" para se transformar em nova vida) das posses e de tudo aquilo que uma vez integrado ao universo material do nativo, lhe favorece, se convertendo no signo ascendente naquilo que o identifica para o mundo como sujeito sentiente e provido de identidade.

I -

Segundo Schmidt, nascer é passar da invisibilidade para a visibilidade. Levando essa idéia além, o nativo passa da condição de imperceptível no mundo para o qual ele nasce e se apresenta para o cumprimento de sua jornada. Essa casa é determinante na aparência adquirida para tal jornada, na qualidade desta (boa ou má constituição, sujeita ou não à intempéries e acidentes). Também aqui se revelam as disposições do temperamento e de condutas do sujeito / objeto, de acordo com as influências várias sofridas por essa área tópica na carta natal. A origem da analogia é simples, e é a primeira analogia imediatamente perceptível na astrologia, pois é nesse ponto onde nascem no horizonte todas as estrelas, e onde nasce a maior delas, fonte de toda animação no mundo material e analógica ao Um. Por conter o elemento central à toda existência, é o pivô das análises daquilo que influencia a natividade, para onde deve se dirigir, primariamente, os olhos do astrólogo. Em grego seu nome é Anatole, ou traduzindo livremente, "Ascensão Leste".

XII -

A casa XII também se revela complexa no seu desemaranhar, principalmente por ser uma casa cuja manifestação é quase sempre confusa no próprio trabalho astrológico. A primeira idéia que essa casa trás é a de "decadência da vida". Sendo a casa I o local onde a vida se manifesta, a partir desse ponto, é necessário empreender uma luta pela manutenção desta, mas uma luta perdida, pois o término da jornada inexoravelmente leva à privação final. Por ser a casa que segue ao ascendente, representa todo elemento que remove ou concorre para remover a vida do nativo. Uma vez que o nativo inicia na I sua jornada, toma-se um caminho, e por conseqüência, enfrentam-se adversidades em conseqüência dessas escolhas. Por ser uma casa escura, avessa ao ascendente, ela indica que as escolhas são tomadas com pouca presciência, ou seja, ainda que sejam, de fato, escolhas exercidas na liberdade do arbítrio, a casa XII aponta as imprevisibilidades inerentes aos nossos atos, mesmo os mais pueris. Como é um local público, temas como acidentes (eventos derivados da imperícia) prisão (da imprudência) e outros similares, caem sob seu domínio. Como todas as casas cadentes, indica locais distantes, mas aqui, locais ermos e perigosos ao bem-estar e integridade. Em suma, é uma casa de auto-aflição, indicando também vícios em geral, sejam por drogas ou de outra natureza, bem como compulsões. Segundo Schmidt, e tendo a concordar com ele, a atribuição de inimigos ocultos à essa casa foi uma inovação árabe, e equivocada, pois os inimigos ocultos seriam mais bem representados pela casa VI, abaixo do horizonte, ou seja, oculta de fato, e próxima do elementos "Outros" contido na casa VII, em oposição ao "Eu" da casa I. A casa XII também representa escravatura, servidão e gado, indicando que é nela que ocorre a tomada de qualquer liberdade arrogada, mediante as contingências do mundo material. Manilius, em seu Astronomica, ao diferenciar a XII da VI, escreve que Ambas serão um portal para o labor; numa estás destinado a escalar, noutra a tombar. Em grego, a XII é nomeada Cacus Daemon, ou "Mau Espírito".



Namastê,



Shakti

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